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Jogo de Búzios

É com prazer que apresento trechos do livro do nobre Professor Agenor de Miranda, personalidade conceituada e respeitada em nosso meio, cujo texto de sua obra, "Caminhos de Odu", está sendo gentilmente cedido pela Editora Pallas.

O destino das pessoas e tudo o que existe podem ser desvendados por meio da consulta a Ifá, o oráculo, que se manifesta pelo jogo. Ifá tem seu culto específico e o mais alto cargo do culto de Ifá é o de oluô, título concedido a alguns babalaôs. Ifá é o orixá da advinhação e para tudo ele deve ser consultado. Existem dois tipos de jogo: o do opelê-Ifá e o jogo de búzios.

No jogo de búzios, mais comum, quem fala é Exu. São dezesseis búzios que podem ser jogados também pelos babalorixás e ialorixás. A consulta a Ifá é uma atividade exclusivamente masculina, mas as mulheres passaram a poder pegar nos búzios porque Oxum fez um trato com Exu, conseguindo dele permissão para jogar. Tanto o jogo de búzios como o do opelê-Ifá baseiam-se num sistema matemático, em que se estabelecem 256 combinações resultantes da multiplicação dos 16 Odus uasdos no jogo de búzios por 16. Nada se faz sem que antes se consulte o oráculo. Quanto mais séria a questão a serm reslovida, maior a responsabilidade da pessoa que faz o jogo.

As obrigações do Odu, ou ano ritual, são muito importantes para uma casa. é dali que cada pessoa e a própria casa retiram a força necessária para continuar existindo. As oferendas representam uma troca constante de axé. Muitos detalhes precisam ser pensados para que os preceitos sejam cumpridos à risca. Por isso, antes do início do Odu, é indispensável que se faça um jogo para saber exatamente como devem ser realizadas as obrigações.

No Brasil, o ano ritual varia muito de uma casa para outra, mas em todas elas as obrigações começam com as "Águas de Oxalá". Como nem sempre essa obrigação é feita no início do ano, é necessário que se faça anualmente o jogo para saber qual o Odu que irá reger o ano. A partir do conhecimento do Odu, o oluô prescreve os ebós necessários às pessoas para que elas atravessem com sucesso o ano novo que se inicia. A partir do conhecimento dos Orixás que regem o ano, outros jogos são feitos para estabelecer as obrigações que a casa deve cumprir durante aquele ano: fica-se, então, sabendo como deverão ser homenageados os orixás, o que lhes será oferecidpo, quando etc.

Além dos jogos feitos para a casa como umtodo, são feitos também jogos individuais que indicam feituras, boris e toda a sorte de obrigações individuais que devem ser feitas para os filhos da casa. Uma vez estabelecido o calendário do ano, têm início as obrigações. As obrigações do Dum são compostas por momentos bem definidos.

A primeira parte de todas as obrigações se constitui de ritos preliminares, em que as pessoas e a casa são preparadas para a realização daquela obrigação. Antes do início de qualquer obrigação, todos os membros do egbé presentes tomam banhos com ervas adequadas à obrigação que irá se iniciar. O banho prepara o corpo. Sem tomar banho não se pode participar de nada. Esse é um dos muitos exemplos da importância de Ossaim, o dono das folhas. Sem folha nada se faz.
A partir de então, tem início a obrigação propriamente dita, que se compõe de cinco partes: a matança, o padê, o ianlê, a festa e a entrega do carrego, tudo de acordo com o jogo feito para o Odu, assim como pelo jogo feito antes da realização de cada obrigação e mesmo para cada etapa de uma mesma obrigação.

Agenor Miranda da Rocha nasceu em Luanda, Angola, filho de pais portugueses, em 8 de setembro de 1907. Iniciado no candomblé por Mãe Aninha, fundadora dos terreiros Axé Opô Afonjá, de Salvador e Rio de Janeiro. Completou sua obrigação na lei-do-santo iniciando-se para Euá, seu segundo Orixá, com Cipriano Abedé, no Rio, levado por sua mãe-de-santo, que viria a ser ialorixá da mulher de Abedé.

O Professor Agenor, já falecido, em sua longa vida, conviveu com as mais importantes personalidades do candomblé, desde Pai Cipriano abedé até Mãe Menininha do Gantois, de quem foi amigo pessoal e Oluô- cargo importante na Nação, que significa o mais alto cargo do culto de Ifá.

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